Esses dias de quarentena podem ser mais leves se conseguimos um tempinho para assistir filmes ou series com boas mensagens. Se você tem muito tempo, verá bem rapidinho a minissérie. Se está com o tempo apertado, por conta dos filhos em casa, do trabalho, da casa, poderá se deliciar aos pouquinhos. Para quem não viu a serie ainda, aviso que apresenta algum spoiler.
O título já me chamou a atenção e a capa trazia a Octavia Spencer, que admiro demais, como personagem principal. Ao ler a sinopse, me rendi: “A Vida e a História de Madam C.J. Walker. Uma afro-americana que venceu a pobreza, construiu um império de produtos de beleza e se tornou a primeira milionária pelo próprio esforço. Baseado em uma história real.”
Retrata a história de uma negra visionária que na primeira década do século vinte percebeu o quanto o cabelo era importante na autoimagem da mulher. O filme já inicia com as frases: “Cabelo é beleza. Cabelo é emoção. Cabelo é nossa herança. O cabelo diz quem somos, onde estivemos e para onde vamos.”
Filha de pais recém libertos da escravidão, Sarah Breedlove, uma lavadeira que trabalhava duro, sente-se desmotivada com o trabalho que exige demais, e não é suficiente para as suas despesas. Começa a ter uma séria queda de cabelos, é abandonada por seu marido que não aceita a atual aparência da sua esposa.
“Agora que aprendi a contar minha história, não posso mais ficar em silêncio.”
A sua vida começa a mudar, quando Addie Munroe, uma vendedora, lhe aborda e oferece um produto que promete recuperar seu cabelo. Em troca dos seus serviços de lavadeira, consegue fazer o tratamento com Addie e aos poucos o seu cabelo volta a crescer. Sua autoestima melhora, conhece seu novo marido, CJ Walker. Não aceita como vendedora, pela criadora do produto capilar, Sarah não se conforma que a aparência da pele clara das mestiças escolhidas para representar o produto, venderão mais do que a sua verdade, de quem usou o produto e teve resultado. Inicia-se uma briga e, esse é o primeiro motivo para Sarah querer criar sua própria história.
Motivada pela sua inconformidade na sua situação como lavadeira e a vontade de ajudar as mulheres negras a terem mais confiança, Sarah cria a sua linha capilar. A serie se desenrola e traz várias lições.
“Não sei como sonhei, mas não ia deixar nada me impedir.”
Uma mulher negra, que enfrenta o racismo, o machismo e a ditadura da beleza e, que na década de vinte, cria um império de beleza em NY. Não é por acaso que está até hoje no livro dos recordes.
A serie toca em pontos ainda muito atuais: racismo, machismo, empoderamento feminino, a relevância da aparência, o julgamento da aparência enquanto fator limitante ou fútil. Com relação ao último ponto, ainda tenho observado muito isso e ouvido de algumas clientes. Que até o presente momento não achavam que a aparência era um fator importante em algum aspecto, que isso não era mais importante do que o intelecto. E que não pensavam ou não se permitiam pensar em beleza por ser algo fútil ou irrelevante. Com o encaminhamento da consultoria, esse discurso foi mudando.
Na serie é interessante como Addie coloca a aparência como fator determinante para o sucesso de uma mulher. No entanto, quem acaba ganhando mais notoriedade e se destacando é Sarah, que coloca outros pontos à frente disso: empoderamento e empreendedorismo feminino por afirmar, na primeira década do século vinte, que a mulher pode liderar e assumir uma empresa desde que queira; astúcia e inteligência para montar estratégias e fazer crescer o seu negócio; cooperativismo por dar oportunidade aos seus funcionários de crescerem e não apenas a empresa. Mas em momento nenhum, ela diz que a aparência é irrelevante, até porque ela vende um produto de beleza. E mostra que o autocuidado pode elevar a autoestima, a confiança da mulher.
“Eles nos humilham, não nos dão nada. Fazem a gente se sentir feia.”
A frase acima faz a gente refletir sobre os padrões de beleza e o quanto eles aprisionam e podem criar um enorme problema psicológico se não souber lidar com isso. Na trama, Sarah mostra que não se paralisou por tais imposições. Pelo contrário, isso desencadeou um ponto de força nela. Acho que tais desconstruções e a aceitação de quem somos, nos retira dessa “prisão”. Acho que traz a importância da reflexão sobre isso. A compreensão da diversidade e do entendimento da singularidade facilitam o caminho para se aceitar e se reconhecer.
“Cabelo é poder. Você não imagina o que é perdê-lo.”
O cabelo é um ponto importante para a mulher. E isso não se pode negar. E ele de fato conta uma história, mostra a beleza por trás da diversidade. Quando trabalhei na ala oncológica, como fisioterapeuta intensivista, ouvi vários relatos de mulheres que chegaram a afirmar que das piores coisas da doença, tinha sido a perda dos cabelos. Há mais de dez anos quando tive uma queda e corte químico, já sofri com isso. E, olha que nem de longe passava pelos outros problemas que minhas pacientes me descreveram. Mas o que tínhamos em comum, era a perda da autoestima e autoconfiança pelo trauma.
“Cabelo pode ser liberdade ou prisão. A escolha é de vocês.”
Devemos respeitar a relação que cada um tem com o seu cabelo. Ele pode expressar um estilo, uma personalidade e também pode promover o encontro com o “seu eu” diante do espelho. Eu, enquanto consultora de imagem, auxilio para chegarmos a esse ponto de encontro.
Enfim, a minisserie, a meu ver, vale muito a pena ser assistida por todos! Nem que seja para saber como a primeira mulher negra conquistou tanto em uma época que a mulher não tinha voz. Confesso que fiquei na curiosidade para saber o quão presente ela foi na luta pela emancipação das mulheres negras. Já que imagino que ela pode ter mudado a vida de outras pessoas por ter dado emprego para que muitas mulheres negras buscassem a independência, por ter investindo em universidades para pessoas negras, dado que trazem no final da trama, incentivando a cultura e oportunidades para a comunidade negra.
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Um comentário sobre “A Vida e a História de Madam C.J. Walker – Quais lições você tirou da minissérie?”
Amei o texto assim como amei a série! Cheia de força e determinação, ela é um ser admirável! Obrigada por dividir com a gente sua visão sobre a serie. Mostra como sempre que está super antenada! Um beijo! E que Madame Walker seja uma inspiração para todas nós.
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